Ubíquo remete-se ao Azul Carmim

Conheço uma ervilha. Ah, não, espera, é um grão-de-bico. Chama-se Ubíquo e, ao contrário do que o seu nome possa sugerir, não está em todo o lado. Ubíquo integra Os Granizados, um grupo a capella que, juntamente com Robirta, gravou Batongo, uma música algo peculiar. Ubíquo é um grão-de-bico existencialista e que dedica grande parte da sua vida a reflectir sobre questões filosóficas profundas. Uma das grandes questões que desde cedo o assolou foi a de não ser possível provar que os grãos-de-bico não são simplesmente um cérebro num boião cheio de líquido no qual são induzidas por impulsos eléctricos todas as percepções sensoriais que os grãos-de-bico pensam sentir no seu dia-a-dia. Toda a vida de um grão-de-bico pode ser uma mera ilusão e não é possível um grão-de-bico provar que a sua própria vida é mais do que apenas isso. Porque, para o provar, teria que sair de si próprio e isso não é possível. Há relatos de grãos-de-bico que ficaram fora de si mas pensa-se que é apenas em sentido figurado.

Recentemente, Ubíquo conheceu Ceroulas, uma ervilha com uma concepção do Universo absolutamente original. Fascinou-o a forma como Ceroulas não assume nada acerca do Universo, nem sequer que há leis físicas que o regem. Mas, acima de tudo, fascinou-o o conceito abstracto e etéreo do seu Universo Azul Carmim, um Universo de conceitos onde existem todos os conceitos que alguma vez alguém pode inventar. Fascinou-o, principalmente, porque sabe que esse Universo tem existência independentemente de o seu cérebro estar dentro de um boião ou não. Ubíquo sentiu que o Universo Azul Carmim lhe punha um sorriso de fascínio nos olhos e lhe permitia não se preocupar tanto com o facto de o seu cérebro poder viver dentro de um boião. Desse fascínio, surgiu Azul Carmim, a sua mais recente criação.





AZUL CARMIM
Ubíquo

Ponho as minhas ceroulas
Finjo estar sempre alegre
Com as surpresas do Universo:
Azul Carmim!

Mas algures na penumbra
Subsistem as dúvidas
Crateras profundas
Quero emergir

O caminho vedado
O arame farpado
Olha-me sempre de lado

Sou só um cérebro
Alimentado por uma pilha solar?
E os corpos mera ilusão
Ficção impressa no meu olhar?

Robirta fascinada com o Batongo

Robirta passou várias semanas nas profundezas da Amazila em comunhão com uma tribo nativa. Viveu, conviveu e partilhou momentos absolutamente maravilhosos com as ervilhas de lá. Expressiva e criativa como é, sentiu tomar forma dentro dela um conjunto de sons inspirados na linguagem falada por aquela tribo, o Batongo. Tratava-se de uma linguagem essencialmente composta por sons de tambores. Cada vez que alguma das ervilhas daquela tribo queria falar, fosse com quem fosse, tinha que convidar essa ervilha para ir até aos tambores, e falar depois com ela. Robirta adorou esse peculiar sistema de comunicação. Robirta passou semanas a ouvir os tambores, ora suaves, ora exaltados, dependendo da mensagem que a ervilha que os usava queria transmitir. Robirta viu um espectro de tonalidades, de entoações, de pequenas nuances de diálogo, em todos aqueles batuques que teve o prazer de ouvir. Interessou-se em especial por um conjunto de versos da poesia tradicional local. No final, saiu uma peça fascinante feita sem qualquer instrumento, apenas vozes: a de Robirta e a dos Granizados, um grupo de grãos-de-bico que canta predominantemente a capella.



BATONGO
Robirta e os Granizados

[Cantando sons inspirados nos seguintes versos em Batongo, uma linguagem de batuques falada por algumas tribos de ervilhas nativas das profundezas da Amazlias.]

Nuances de cor
Teus traços carregados
Quero sentir o sabor
De bifinhos panados
Absorve-me a dor
O mero silêncio dos prados
E nos batuques sem fim
Ouço pedaços de mim

Robirta assalta o banco

Depois de ter sentido o cheiro da paixão e de passar apenas uma de muitas e muitas noites para esquecer a beber num bar qualquer por ter sido desprezada por aquele que pensava ser o seu grande amor, Robirta sentiu ter encontrado finalmente a sua alma gémea. A alma gémea, porém, não tinha a mesma opinião. Por isso, Robirta teve que se contentar em fazer uma musiqueta em que dizia que bem tentou, mas que nada levou. Claro que como estava farta de ser tida como lamechas por ter passado noites e noites a chorar que nem uma perdida com um copo de vodka à frente, Robirta optou por uma música mais animada e dinâmica. O resultado foi surpreendente.




NADA DE TI
Robirta


Tua casca é tão dura de roer
As tuas covas são impossíveis de ter
E no entanto eu não consigo alienar-me
Assalto ao banco e dispara o alarme

E eu desembesto, perseguição pela rua
Levo o dinheiro até ao sítio secreto
Mas nada de ti
Nada de ti!

Como é que é, pessoal?
As ervilhas a curtir?
Como é que é, malta?
Toca a abanar essa casca!
Como é que é?
Nada de ti!

Quero a tua casca, quero a tua casca
Sentir as tuas covas aqui
Quero a tua casca, quero a tua casca
Sentir as tuas covas em mim

[Solo de voz libertador]

Mas nada de ti
Nada de ti!
Nada de ti!

Porquina na espuma do arrependimento

Conheço uma ervilha. Chama-se Porquina. Porquina acreditava na teoria das Bombocas e Ranholas de Alipas. E acreditava com muita força. Mais ou menos a mesma força necessária para levantar um caixote de fruta. Mas dos pesados, não é um caixote de uvas, por exemplo. Porquina tinha a certeza de que era uma ranhola já que a sua vida corria extraordinariamente mal em todos os domínios. Por oposição, a vida de Lustrosa, principalmente desde que tinha criado a sua maravilhosa Teoria do Casaco, corria às mil maravilhas. Lustrosa era aquilo a que se podia chamar um poço de sucesso. Podia, e chamava-se. Isso incomodava muito Porquina. A mera existência de Lustrosa irritava Porquina ao ponto de espumar pela boca.

Num dia de frustração exacerbada, Porquina decidiu matar Lustrosa. Logo de seguida arrependeu-se. Mas, logo de seguida, novamente, voltou a decidir matar Lustrosa. Preferia viver o resto da vida com o sentimento de culpa do que com aquela frustração sem fim. Saíu de casa pela fresca e foi directa a uma loja de armas. Ia comprar uma pistola de 9mm. Viu-a na montra. Era novinha em folha e reluzia. Ao olhá-la, Porquina esboçou um sorriso de ternura. A funcionária explicou-lhe que, dada a natureza do produto em questão, era necessário preencher um formulário especial. Passou-lhe o formulário para a mão. Consistia numa folha quase toda em branco. Numa ínfima porção do espaço da folha podia ler-se a pergunta:
"Planeia cometer algum crime ainda hoje? (S/N)"

Porquina não precisou de pensar muito sobre a resposta. Ela queria matar Lustrosa e matar era um crime. A resposta era obviamente Sim. Escreveu a sua resposta e devolveu o formulário à funcionária. A funcionária explicou-lhe que Sim não era uma resposta permitida. Apenas podia escrever S ou N. Porquina corrigiu, já num novo formulário. A funcionária lamentou e disse-lhe que tinha que ser a tinta preta. Porquina voltou a preencher um novo formulário já com a tinta correcta e perguntou-lhe por que não a avisou logo de ambos os erros no primeiro formulário.

- Ó menina, uma coisa de cada vez. Uma coisa de cada vez. Quem tudo quer, tudo perde -- respondeu a funcionária com um ar muito profissional e imperscrutável.

Porquina aceitou o seu argumento. Realmente, não é boa política fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Podemos enganar-nos. Porém, ficou surpreendida com aquela coincidência extraordinária. Logo no dia em que ela decide matar Lustrosa, alguém lhe pergunta se ela planeia praticar um crime nesse dia. Por outro lado, ficou algo preocupada. Será que a funcionária sabia do seu plano secreto?

A funcionária recebeu o novo formulário e viu o S preto da resposta. Percebeu que Porquina ia cometer um crime naquele dia e ficou preocupada. Olhou para Porquina e fez aquela cara de quem finge não pestanejar mas pestaneja. Porquina achou estranho que ela precisasse de fingir não estar a pestanejar. Não havia mal nenhum em pestanejar. Era um gesto normal e todas as ervilhas pestanejavam. Sempre esta hipocrisia de não se assumir como se é. Porquina confirmou mais uma vez que as ervilhas do seu tempo tinham medo de ser elas próprias, se preocupavam demasiado com a opinião dos outros e evitavam todo o tipo de confrontações. Porquina abanou a cabeça interiormente.

Feita a compra, saíu da loja. Estava contente porque agora a sua vida tinha um propósito. Também estava contente por esse propósito ser eliminar uma das grandes fontes de frustração da sua vida. Ainda viu a funcionária, do outro lado da vitrine, por entre carabinas e espingardas de canos serrados, com um ar extremamente preocupado a falar ao telefone e a segui-la com o olhar. Porquina achou que talvez a funcionária estivesse a telefonar à namorada que lhe estaria a dizer que não gostava do hálito dela. Isso explicaria o ar preocupado. E a funcionária de facto não tinha grande hálito. Tudo batia certo.

Apanhou o autocarro. Lá dentro, ao pensar na missão que tinha à frente, começou a ficar nervosa. Todas as pessoas olhavam para ela com reprovação, com desprezo, com desdém. Porquina tinha a sensação de que todos em conjunto se levantavam, lhe apontavam o dedo, e em uníssono gritavam "Assassina! Assassina! Assassina!". Porquina sabia que era uma boa ervilha, que a sua missão era apenas algo que ela tinha que fazer pelo bem comum, pelo bem estar emocional de todas as Ranholas do mundo. Alguém precisava de as libertar daquele fantasma de Lustrosa sempre a pairar sobre as suas cabeças de ervilha. Quando restabelecia a confiança no propósito da missão, também as ervilhas em redor lhe pareciam mais calmas, serenas e menos incriminadoras.

Chegada a altura certa, desceu do autocarro e seguiu na direcção da casa de Lustrosa. Morava numa zona de vivendas muito selecta. As vivendas serem tão espectaculares, e terem aqueles jardins todos tão bonitos, eram outro factor de irritação para Porquina. Olhou-as por momentos. Começou a espumar da boca. Tirou um lenço do bolso e limpou-se. Prosseguiu o seu caminho. A sua irritação avolumava-se, mas ao mesmo tempo também a sua compaixão pelo próximo sobressaía. E Lustrosa estava claramente mais próxima. Porquina chegou às traseiras da vivenda de Lustrosa. Abriu a porta do jardim e encostou-se a ela, já do lado dentro. Reflectiu sobre o que estava prestes a fazer. Hesitou. Ficou ali horas e horas a debater consigo própria o valor da vida das ervilhas, a fragilidade da vida, a razoabilidade do direito a uma ervilha tirar a vida a outra, abordou a noção de alma, se existiria ou não, se teria pintas roxas ou amarelas. Naquelas horas esclareceu várias das suas dúvidas sobre metafísica e existência, mas não esclareceu a mais importante: se iria usar a sua arma ou não naquele dia. Nisto, um barulho, era a porta da frente, Lustrosa tinha entrado em casa. Era já noite e Lustrosa acendeu a luz da sala. Porquina viu a silhueta de Lustrosa perfeita na janela. Viu-a tirar o seu lindo casaco e pendurá-lo num cabide de pé.

Porquina estava muito nervosa, o suor escorria-lhe pela testa, pela face. Com as mãos a tremer, tirou a pistola do bolso e tentou carregá-la. O carregador caíu-lhe ao chão. Começou a tremer mais. Pensou novamente no valor da vida, em como sentia que não tinha o direito a fazer mal a Lustrosa. Pelo menos, não daquela forma tão drástica. Carregou a arma. Empunhou-a. Apontou-a à janela. A silhueta de Lustrosa perfeita. Porquina podia imaginar-lhe todos os contornos absolutamente perfeitos, as linhas esbeltas, o casaco lindo agora já pendurado. Começou a espumar da boca. Tirou o lenço, limpou-se. Voltou a apontar a arma. As mãos tremiam-lhe, tremia-lhe já o corpo todo, Porquina mal se conseguia equilibrar.

Mais uma vez hesitou. Lembrou-se do dia em que Lustrosa a tinha convidado para jantar, ali naquela mesma casa, de como a tinha tratado bem, de como tinham tido um serão tão agradável, de como Lustrosa lhe tinha oferecido um tiramisu espectacular. Desta vez, ao pensar em Lustrosa, não espumou da boca. As mãos pararam de tremer. Os seus braços baixaram. Sentiu-se aliviada. Todo o peso da culpa tinha ido embora. Porquina percebeu que não conseguia nem queria matar Lustrosa. Teve vergonha de si própria por ter pensado todas aquelas coisas horríveis, por se ter deixado fazer refém da inveja. Decidiu que se queria ser mais feliz teria que lutar por tornar a sua vida melhor e contentar-se com ter tentado o seu melhor em vez de simplesmente destruir quem fosse melhor.

Porquina voltou-se, abriu a porta do jardim e saíu. Nesse preciso instante, chegaram seis viaturas da polícia que a encurralaram contra a parede das traseiras. Porquina percebeu que eram da polícia porque tinham sirenes às cores e diziam Polícia.

- Ponha a sua arma no chão! Já! -- gritou um dos agentes num tom militar, em plenos pulmões.

Porquina obedeceu. Três agentes correram na sua direcção, saltaram-lhe para cima e deitaram-na ao chão. À custa de farta violência física, mesmo sem que houvesse qualquer resistência por parte de Porquina, algemaram-na e meteram-na dentro de uma das viaturas. Foi julgada pelos seus actos e foi condenada a prisão perpétua por homícidio. Morreu na prisão. Foi de gripe do grão-de-bico. Logo ela que nem gostava de grão-de-bico.