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Robirta assalta o banco

Depois de ter sentido o cheiro da paixão e de passar apenas uma de muitas e muitas noites para esquecer a beber num bar qualquer por ter sido desprezada por aquele que pensava ser o seu grande amor, Robirta sentiu ter encontrado finalmente a sua alma gémea. A alma gémea, porém, não tinha a mesma opinião. Por isso, Robirta teve que se contentar em fazer uma musiqueta em que dizia que bem tentou, mas que nada levou. Claro que como estava farta de ser tida como lamechas por ter passado noites e noites a chorar que nem uma perdida com um copo de vodka à frente, Robirta optou por uma música mais animada e dinâmica. O resultado foi surpreendente.




NADA DE TI
Robirta


Tua casca é tão dura de roer
As tuas covas são impossíveis de ter
E no entanto eu não consigo alienar-me
Assalto ao banco e dispara o alarme

E eu desembesto, perseguição pela rua
Levo o dinheiro até ao sítio secreto
Mas nada de ti
Nada de ti!

Como é que é, pessoal?
As ervilhas a curtir?
Como é que é, malta?
Toca a abanar essa casca!
Como é que é?
Nada de ti!

Quero a tua casca, quero a tua casca
Sentir as tuas covas aqui
Quero a tua casca, quero a tua casca
Sentir as tuas covas em mim

[Solo de voz libertador]

Mas nada de ti
Nada de ti!
Nada de ti!

A viagem de Robirta ao Universo Bicolor

Conheço uma ervilha. Chama-se Robirta. Um dia Robirta ia a passear pela rua à procura de inspiração para mais uma música quando viu uma casa a arder. Pensou que alguém podia estar em apuros, por isso aproximou-se. Não porque fosse ajudar. Ela não era de actos heróicos. Queria apenas perceber se encontraria ali material para a sua nova canção. Ficou a olhar, a olhar, em buscar de algo etéreo e profundo. Entretanto chegaram vários carros de bombeiros. Em dois minutos, os soldados da paz apagaram o fogo e controlaram a situação. Robirta perguntou a um deles o que se tinha passado. Ele respondeu-lhe que uma ervilha tinha deixado demasiada lixarada debaixo da cama e que um curto-circuito tinha pegado fogo aquilo tudo. Também lhe disse que a curiosidade tinha matado o gato, mas Robirta não percebeu onde é que um gato era chamado para a história. Talvez a tal ervilha tivesse um.

Entretanto, saíu uma ervilha com uma caneca de chá verde na mão, ainda a fumegar, e embrulhada num cobertor com um ar bastante abalado. Chamava-se Kolmicas. Robirta ficou horas a conversar com ela. Queria saber o que se tinha passado e inspirar-se naquela ervilha traumatizada para escrever a sua música e dar largas à sua criatividade. Kolmicas explicou-lhe a grande saga da sua vida em estruturar a informação e em atribuir-lhe uma caixinha vermelha ou uma azul. Robirta ficou absolutamente fascinada. Era impressionante como ela encontrava a cada canto, a cada virar de esquina, alguém com uma história de vida tão fascinante. Escreveu Universo Bicolor, um dos seus maiores sucessos discográficos de todos os tempos.





UNIVERSO BICOLOR
Robirta


Agarro o jornal matutino
São tantas as notícias novas
Toda a informação me olha e implora
Sistemática estruturação

Ao fim do dia, refresco a meu lado
Decido o que é irrelevante
Recortes precisos, a magia no ar
Começo aquilo que me faz vibrar

Catalogar, compartimentar
Eu nunca nesta vida vou parar
Caixinhas azuis, caixinhas vermelhas
Para mais tarde me deliciar

Talvez esse dia nunca chegue
Talvez a luta impossível
Um dia vou contemplar o universo bicolor
Quero acreditar

Quando abro a janela
Esvoaçam lá fora alegres os colibris
As penas incendeiam-se de cores
Que os meus olhos não sabem abarcar

Toda a entropia que me apoquenta a alma
É por demais espampanante
Procuro refúgio bem no fundo de mim
Nem que sucumba eu vou até ao fim

Robirta descobre a magia do Pónei Azul

Conheço uma ervilha. Chama-se Robirta. Um dia Robirta viu uma ervilha a andar com um sapato raso e outro de salto alto e, intrigada, foi ter com ela. Perguntou-lhe por que razão andava com um sapato de cada feitio e advertiu para os problemas de coluna que essa prática podia trazer. Mal sabia Robirta o que a simples decisão de fazer aquela pergunta lhe reservaria. A ervilha dos sapatos diferentes era Xamilas, famosa por ter criado o Método da Escolha dos Sapatos. Nas duas horas seguintes, Robirta aprendeu tudo e mais alguma coisa sobre o Princípio da Ordem Natural e converteu-se irreversivelmente à filosofia teológica da Ordem Natural. Ficou tão fascinada com a nova visão do mundo recém adquirida que, criativa como era, trouxe ao mundo uma linda canção. Chamou-lhe Pónei Azul. No início do refrão pode-se constatar a genuína imersão de Robirta neste tema quando, no auge da evocação ao Pónei Azul, a voz lhe falha de emoção de uma forma totalmente improvável e inesperada.




PÓNEI AZUL
Robirta

Pela manhã calço os meus sapatos
Não sei de que cor vão ser
E se iguais nos meus pés chatos
Rodopio de prazer

Marcado encontro algures na margem
Onde e quando, vou esconder
Se do bosque a tua imagem
A alegria de te ver

Pónei azul [falha de voz emocional], faz-me voar
Leva a minha casca até à beira do mar
Pónei azul, não peço demais
Só um mundo de escolhas, de momentos especiais
Pónei azul, arco-irís sem fim
Dos escombros, perfeita, a harmonia improvável em mim
Ponéi azul, fazes-me tão feliz
Às vezes por um triz (pónei azul)
Às vezes por um triz (pónei azul)

Robirta e as noites para esquecer

Conheço uma ervilha. Chama-se Robirta. Depois de ter descoberto o Cheiro da Paixão, Robirta descobriu a dor de ser abandonada pelo grande amor da sua vida e decidiu beber para esquecer. Escreveu "Mais Uma Noite Para Esquecer". Quase sempre vodka. Noites e noites naquilo. Não sei se alguma vez sairá desta fossa. Vamos acreditar que sim.







MAIS UMA NOITE PARA ESQUECER
Robirta

É sexta-feira à noite e eu
Não tenho ninguém com quem rolar
Longe os tempos em que as tuas covas viviam perto de mim
Longe os tempos em que a tua casca me abraçava sem fim

Por isso quatro da manhã e eu
Perdida num bar qualquer
Vou beber
Vou beber para esquecer

Abandonaste-me e fiquei ao frio
Onde está a minha humidade?
Passo os dias a chorar e tu não queres saber
E hoje é só mais uma noite para esquecer

Robirta e o cheiro da paixão

Conheço uma ervilha. Chama-se Robirta. Dispensa apresentações. Robirta apaixonou-se. Sentiu-se a pairar sobre qualquer coisa linda e mágica e escreveu. Escreveu uma música onde disserta sobre aquilo a que decidiu chamar O Cheiro da Paixão.



O CHEIRO DA PAIXÃO
Robirta

Só quero ser feliz
Procuro emoção
Trazes ao meu nariz
O cheiro da paixão

Na tua pele tão verde
Um doce travo a DDT
De ti eu tenho sede
Beija-me e logo se vê

Deixas o meu corpo a voar
A pairar sobre os campos fertilizados

Só queres ser feliz
Procuras emoção
E eu levo ao teu nariz
O cheiro da paixão

Na minha pele mais clara
Uma covinha que te prende
Tua atracção dispara
Agarras-me e partimos sem mente

Deixas o meu corpo a voar
A pairar sobre os campos fertilizados

A Fibra Pesada de Robirta

Conheço uma ervilha. Chama-se Robirta. Faz músicas. Depois do seu grande sucesso Eu Não Quero Ir para a Sopa, Robirta fez uma primeira incursão em Fibra Pesada. É um estilo como outro qualquer. Só que tem muita energia. Principalmente para uma ervilha. Nos agudos chego a ter medo que ela rebente. Até agora nunca rebentou. É ver.

A nova música aborda o tema das injustiças sociais. De como certas pessoas esbanjam vagens em coisas fúteis enquanto outros nada têm. Mas vou parar por aqui. Robirta não gosta que se explique as músicas que faz. Diz que é um insulto à inteligência dos fãs. A música chama-se Vou Pegar Fogo às tuas Vagens.



VOU PEGAR FOGO ÀS TUAS VAGENS
Robirta

(Na na na na na)

As vagens geram assimetria

Não estou disposta a pactuar
Com uma existência material e fria
Por isso estou-te a avisar

Vou pegar fogo às tuas vagens
Vou pegar fogo às tuas vagens
Vou pegar fogo às tuas vagens
(Vagens)

Sem vagens já não vais comprar champagne (champagne)
Nem férias nas ilhas Phuket (Phuket)
Vais deixar que a depressão se
entranhe (entranhe)
E só então vais perceber porquê: (porquê)

Vou pegar fogo às tuas vagens
Vou pegar fogo
às
tuas vagens
Vou pegar fogo às tuas vagens
(Vagens)

[Risota tradicional das ervilhas de Urdiche]

Robirta da voz estonteante e a sua fã incondicional

Conheço uma ervilha. Chama-se Robirta. Robirta gosta muito de fazer gravações das suas composições musicais. Passa os dias a ouvi-las. Aliás, não ouve mais nada. Diz que não quer poluir a sua experiência auditiva com influências externas. Não quer perder o seu interior mais profundo.

Muita gente considera a sua voz fascinante. Outros tantos abominam-na. A sua voz é um divisor de multidões: ou se ama, ou se detesta. Há sempre, claro, os que não a conhecem e também os que, conhecendo, não têm uma opinião formada sobre o assunto. É gente estúpida.

Robirta decidiu partilhar com o mundo a sua música favorita, a que chamou Eu não quero ir para a sopa. Criou um ficheiro MP3 e pô-lo à disposição num torrent na internet. Decidiu chamar-lhe "Crazy_Aerosmith.mp3". Há quem diga que Robirta escolhe os nomes dos ficheiros a dedo só para ter muitos downloads -- ao fim de dois dias tinha tido cerca de 500 mil downloads o que é inédito para uma ervilha até então desconhecida -- mas isso é totalmente falso. Fá-lo porque é uma verdadeira crente no Princípio da Ordem Natural* e julga que para alguém encontrar a sua música na internet tem que ser por uma razão muito forte. Ora, com este nome, a probabilidade é mínima. Ninguém se iria lembrar de procurar o Eu não quero ir para a sopa de Robirta escrevendo "Crazy" e "Aerosmith" no campo de procura.



EU NÃO QUERO IR PARA A SOPA
Robirta

Os ventos sopram de feição
Rapam as vagens em segredo
Não quero ser a refeição
Morrem ervilhas só de medo

Eu não quero ir para a sopa
Eu não quero ir para a sopa

Pirotas é uma ervilha que não conheço. Nem ela me conhece a mim. Robirta também não conhece Pirotas, mas Pirotas é grande fã da produção artística de Robirta. É tão fã que conhece todas as manias e segredos de Robirta. Em particular, está a par do grande fetiche de Robirta. O de pôr sempre as suas produções artísticas em ficheiros com nomes que, à primeira vista, parecem de outros artistas. Pirotas passa então os seus dias a fazer downloads de ficheiros MP3 com nomes de artistas conhecidos. Chega a puxar mais de 200 músicas por dia. Passa dias e dias nisto, por vezes meses seguidos, até conseguir encontrar uma música que seja de Robirta. Mas, quando encontra, essa descoberta fascinante compensa por todos aqueles dias deitados ao lixo.

Rogilas é a primeira-ministra da República Inomesa. É tia de Baquicas. Convenceu o parlamento do seu país a passar uma lei que proíbe os downloads de músicas protegidas por direitos de autor. A pena por cometer este crime é pagar ao artista tudo aquilo que o artista quiser, quando ele quiser. Rogilas disse que esta lei se impunha porque estava preocupada com os problemas dos jovens artistas como um todo. Disse que nem sequer tinha conhecimento que Baquicas tinha enveredado por uma carreira musical. A outra sobrinha de Rogilas é dona de uma editora discográfica. Mas Rogilas afirma nem sequer conhecer essa sobrinha. Diz que a sobrinha é do lado do marido e que essa gente não é de boa rês.

Um dia Pirotas acordou sobressaltada às três da manhã com um estrondo na porta. Rebolou-se da cama e desceu as escadas. "Polícia!", alguém berrou. Pirotas abriu a porta e viu sete ervilhas da polícia especial armadas com lança-feijões. Teve medo. Muito medo. O chefe dos sete perguntou-lhe se morava lá uma ervilha chamada Pirotas. Pirotas disse que não. Eles pediram desculpa e foram-se embora. Pirotas sentiu remorsos. Mentir é feio. Chamou-os ao longe. Eles voltaram. Disse que era ela a Pirotas. Eles iniciaram os seus procedimentos de imobilização e levaram Pirotas com ela. Puseram-na numa cela.

Dois anos volvidos, Pirotas está ainda na prisão. O chão é de cimento. Dizem que cometeu um crime. Pirotas acha que o seu único crime foi amar a música de Robirta. Robirta teve tanto sucesso no mundo da música que foi apanhada com droga numa casa de banho. Foi detida. Ficou na cela mesmo ao lado de Pirotas. Agora todos os dias de manhã Robirta canta para Pirotas o Eu não quero ir para a sopa. Pirotas inventou até uma coreografia para a música. Foram muito felizes as duas, nessa altura. Pensaram até adoptar. Mas depois Robirta foi libertada.

* O Princípio da Ordem Natural (PON) é uma crença profunda de que acontecimentos muito improváveis que têm de facto lugar são especiais. Esses acontecimentos são designados por Coincidências Não Fortuitas. Algumas ervilhas levam este princípio mais longe e chegam mesmo a diminuir a probabilidade de acontecimentos desejados apenas para os tornar ainda mais especiais.