Conheço uma ervilha. Chama-se Camola. Depois da saga da compra do Ambrósio, Camola decidiu que precisava de lhe arranjar um substituto. Até porque, por ser grande e rijo, Ambrósio sobreviveu à queda do quinto andar e foi preso por homicídio negligente de um pombo. Negligente porque, tivesse estado com atenção, tinha-se desviado do pobre pombo. Ambrósio tentou alegar instinto de sobrevivência já que, não fora o pombo a amortecer a queda, teria morrido. Não teve sucesso e apanhou dezasseis anos de prisão. Já a Camola nada aconteceu porque ao atirar um computador do quinto andar, era impossível que estivesse premeditadamente a querer fazer mal àquele pombo em particular. E também porque ela negou sempre que tinha atirado Ambrósio da janela. Justificou tudo com um bug do Uindôs que era conhecido por abrir e fechar janelas quando menos se esperava. Todos estes pormenores são irrelevantes. O importante é que Camola precisava de um computador com urgência.
Passou numa loja de computadores muito recente na baixa da cidade e sentiu-se compelida a entrar. Não por qualquer motivo relacionado com os produtos à venda, mas tão-só pelas cores hipnotizantes da montra e pela grande maçã já com uma dentada que tinham à entrada. Camola adorava maçãs. Já lá dentro, viu uma pequena caixa branca reluzente. Estava para venda. Era um computador. Era lindo, por isso trouxe-o para casa. Em casa, ligou-o. Entrou num mundo fascinante. Tudo funcionava, tudo era compatível, tudo fazia exactamente aquilo que ela queria, como ela queria e quando ela queria. Sempre que não sabia como fazer alguma coisa, Camola fazia a primeira coisa que lhe vinha à cabeça e funcionava sempre. Um sonho tornado realidade. Nem dois minutos passados sobre a chave de casa na porta e já Camola a ouvir a sua música favorita de Robirta, que entretanto já era O Cheiro da Paixão. Sentiu que estava apaixonada pelo seu novo computador. Decidiu chamar-lhe Brucélio.
Brucélio era de facto perfeito. Camola estava por demais satisfeita. A única coisa que a incomodava era que, embora pudesse ouvir toda a música que quisesse no Brucélio, ele era grande demais para o levar quando ia fazer o seu rolling* matinal. Decidiu comprar um aparelho mais pequeno só para esse efeito. Estava tão satisfeita com Brucélio que foi novamente à loja da maçã. Na loja aconselharam-na a comprar um dos novos iRoll que vendiam. Disseram-lhe que os iRoll eram muito compatíveis com o Brucélio e que se ela arranjasse um aparelho de outra marca qualquer podia haver todo o tipo de problemas. Camola achou que só um problema já seria muito desagradável portanto todo o tipo de problemas seria mesmo muito mau. Assim fez. Levou o iRoll. E não se arrependeu. Bastava ligar o iRoll ao Brucélio e a magia acontecia. Toda a música de ambos se sincronizava e a vida fluía em perfeita harmonia.
Aquela empresa da maçã era de facto fenomenal. Pensavam em todas as necessidades dos utilizadores. Nada falhava. Quando decidiu comprar um telemóvel, porque o seu estava velho, Camola não hesitou em dirigir-se à loja da maçã com a dentada. Mais uma vez, não se arrependeu. Comprou o telefone deles. Aliás, tudo foi muito fácil porque não havia sequer modelo ou características para escolher. O modelo era único, só havia aquele. Mas isso fazia todo o sentido porque todas as ervilhas tinham a mesma exacta necessidade: telefonar. Se a necessidade era a mesma, para quê as escolhas? Para além disso, é muito perigoso dar escolhas às ervilhas. Elas quase nunca saberiam bem o que fazer com a liberdade. Pensou também que não era assim espectacular não poder correr duas aplicações ao mesmo tempo, nem ser impossível mandar MMS com fotos do seu dia-a-dia atribulado às amigas. Nem o facto de não poder guardar o rascunho de um SMS enquanto escrevia outro SMS. Ainda por cima porque a maior parte dos telefones banais de outras empresas conseguiam fazer tudo isso. Mas isso era amplamente compensado por toda aquela integração perfeita com o seu adorado Brucélio. E porque era lindo. E porque todas as amigas gostavam mais dela por ela ter um.
Camola descobriu que a grande empresa da maçã não parava de pensar nela e tinha preparado, só para ela, um sítio único na net onde Camola podia comprar toda a música que queria. Adeus aos desagradáveis CDs, e ao ter que sair de casa para comprar música. Se era para fazer exercício, ia fazer rolling, não ia comprar CDs. E uma pechincha. Uma vagem por cada música. Ela podia sempre comprar noutro sítio mas, se fosse ali, tudo era muito mais simples e podia comprar a música directamente do seu iRoll. Até mesmo durante o rolling matinal, algo que lhe dava prazer. Até porque quando as ervilhas a viam naquilo ficavam a achá-la uma ervilha muito moderna.
Comprar música naquele sítio era ainda mais tentador porque, ao fim de seis músicas, recebia um vale 2 por 1 para usar numa cadeia de pizzarias. Camola não gostava particularmente de pizzas e muito menos de comer sempre na mesma cadeia, mas tinha a grande vantagem de ter esse desconto. Para além disso, quanto mais consumisse naquele restaurante, mais vales de desconto tinha para comprar o "Diário do Prado", um diário generalista de informação sobre o mundo. E Camola gostava muito de saber coisas sobre o mundo. Por isso não desperdiçava um único vale que fosse. Até chegava a ir mais vezes à tal pizzaria, só para poder comprar o jornal do dia. Esse jornal era fantástico porque se se acumulasse pontos suficientes, tinha-se um desconto substancial em pacotes de férias numa praia específica da República Inomesa. Era uma pena ter que ser naquela praia em particular, até porque não era assim nada de especial, mas o desconto era substancial e valia a pena. E na praia podia usar internet de graça se usasse o seu Brucélio. E o aluguer do carro era oferecido no pacote, por isso valia mesmo muito a pena. Tinha que ser um modelo específico, mas era um carro muito jeitoso. Funcionava com o mesmo sistema operativo do Brucélio.
Ao fim de alguns meses, Camola estava tão satisfeita com todos os produtos que tinha conseguido obter através da sua compra do Brucélio que tinha conseguido convencer todas as amigas da espectacularidade da sua conquista. Aos poucos, todas as suas amigas compraram um computador igual ao dela e, pelas mesmas razões, foram gradualmente seguindo os mesmos passos de Camola. O leitor de música, o telemóvel, as pizzas, o jornal, as férias e o carro. Algumas ervilhas queixavam-se da falta de escolha que havia e da standardização, de como todas tinham coisas iguais e todas faziam o mesmo. A verdade é que isso também era bom porque tinham mais em comum e sentiam-se mais próximas umas das outras. E, se se alheassem da falta de escolha, os produtos que acabavam por utilizar eram os melhores do mercado. Não tinham liberdade de escolher quase nada nesses produtos, porque eram todos iguais, mas eles eram funcionais e, acima de tudo, muito bonitos. Eram autênticas obras de arte. E podiam colar autocolantes da sua predileção para os tornar únicos. Isso deixava-as felizes.
* O rolling é um tipo de exercício feito por muitas ervilhas. Consiste em andar a rolar a uma velocidade aproximadamente constante pela rua, não porque se precise de ir algum lado concreto, mas apenas pelo exercício. A maior parte dos ervilhas gosta de o fazer antes de ir para o trabalho ou à tardinha. Algumas, mais atarefadas, usam mesmo passadeiras automáticas em que podem rolar o tempo que quiserem sem sair do mesmo sítio.
Chiquita e o seu teste 99.8% seguro
Conheço uma ervilha. Chama-se Chiquita. Chiquita tem uma capacidade fora do vulgar para se lembrar de formas muito originais de fazer vagens. São quase sempre ideias efémeras e o lucro que advém de cada uma dessas ideias é muito pequeno e localizado no tempo. Porém, são tantas as ideias e sempre tão fora-de-série que Chiquita, só à custa delas, consegue manter um rendimento mensal de encher a casca a qualquer ervilha.
Um destes dias, Chiquita teve mais uma das suas ideias geniais. Surgiu-lhe enquanto navegava na net, uma actividade à qual dedicava uma ínfima parte do seu tempo. Daí que fosse uma coincidência mirabolante que a ideia lhe tivesse surgido precisamente nessa altura. Chiquita era uma crente acérrima no Princípio da Ordem Natural* e, devido a toda aquela improbabilidade, achou que aquela ideia devia ser muito especial. Ao navegar na internet, essa fonte fidedigna de informação, Chiquita viu uma estatística interessante: o número de ervilhas no mundo afectadas pelo vírus da Chupilose do Carnaval, apenas sexualmente transmissível, era 0,2% da população total de ervilhas no mundo. Essa informação crucial, por Chiquita desconhecida até então, fez-lhe surgir um sorriso de cova a cova. Tinha acabado de descobrir um método muito engenhoso de testar a doença.
Chiquita começou a preparar o primeiro kit de teste da doença. Comprou um tubo de ensaio baratucho e colocou lá um líquido verde com cheiro a refogado. Arranjou um autocolante tipo raspadinha e arranjou forma de colocar debaixo da superfície a riscar a seguinte mensagem: "Não tens chupilose, pá. Mas para a próxima, cuidadinho!". Chiquita sorriu por dentro quando percebeu que, de acordo com a estatística que tinha visto, tivesse ou não chupilose a ervilha, este kit acertaria em 99,8% dos casos. E 99,8% parecia-lhe um teste bastante fiável. Para tornar o teste mais profissional, Chiquita preparou um folheto informativo. As instruções eram as seguintes:
Quando havia instruções com muitos detalhes e a sugerir coisas ridículas e que as ervilhas não conseguiam entender, todos acreditavam mais na fiabilidade do teste. E era preciso dar segurança às ervilhas que faziam este tipo de teste.
Chiquita estava contente consigo mesma por ter feito tal descoberta tão fascinante e por ter conseguido usar as técnicas da Teoria do Casaco que levariam este teste ao número máximo de ervilhas. Fazia-o de forma altruísta, para ajudar todas as ervilhas em apuros. Sentiu-se útil à comunidade. Depois, apercebeu-se de que, dada a natureza do teste, nem chegava a ser preciso qualquer contacto directo com a ervilha que estava a ser testada. Podia, aliás, ser tudo feito na internet. Embalada de toda essa motivação, Chiquita criou um mega site na net onde as ervilhas podiam fazer o seu teste da chupilose a troco de 10 vagens. E podiam fazer dois testes pelo preço de um. Desde que fossem os dois na mesma ervilha. Algumas ervilhas queixaram-se dizendo que depois de fazerem o teste já não iam precisar do outro. Mas Chiquita explicou-lhes que ao fazerem dois, aumentavam a fiabilidade do teste.
Num processo de generalização abstracto digno das mentes mais brilhantes, Chiquita notou que este teste podia ser alargado a todas as doenças cuja expressão na população mundial de ervilhas fosse igual ou superior à taxa de fiabilidade que estivesse disposta a anunciar. Passado pouco tempo, tinha já montado um site onde testava todas as doenças presentes em menos de 1% da população. Eram praticamente todas as doenças relevantes para as ervilhas. Aos poucos a sua empresa cresceu e monopolizou o negócio de testes de doenças através de fusões e aquisições de outras empresas de testes mais pequenas. Eram empresas que não tinham conseguido crescer porque tinham ficado presas a burocracias legalistas que as obrigavam a seguir todo um conjunto de práticas deontológicas. Com as aquisições todas essas práticas puderam ser eliminadas e o mercado pôde funcionar livremente. Foi também uma lição de economia que Chiquita deu ao mundo.
Certo dia, houve uma ervilha muito esperta que provou por a+b que aquele teste não fazia sentido. Era uma ervilha que adorava provar coisas por a+b. Gostava da abstracção das variáveis e de como cada uma dessas letras podia representar tantos números diferentes. Já tinha aliás provado um monte de coisas por a+b. Fazia-a sentir-se bem. Chiquita foi processada e teve que retirar o seu teste do mercado. E teve que pagar uma indemnização. Não iria ficar ali a rir-se a fios de vagem despregados. Pagou um monte de dinheiro. Foi praticamente 17% daquilo que ganhou com a história do teste, o que era mesmo muito porque ela tinha ganho muito com o teste. Pagou pelo que fez. Por essa altura, porém, já Chiquita tinha outra ideia em marcha. Teve-a enquanto aparava a relva do jardim, coisa que só fazia uma vez por ano. Outra coincidência. Claramente, outra das suas ideias especiais.
* O Princípio da Ordem Natural (PON) é uma crença profunda de que acontecimentos muito improváveis que têm de facto lugar são especiais. Esses acontecimentos são designados por Coincidências Não Fortuitas. Algumas ervilhas levam este princípio mais longe e chegam mesmo a diminuir a probabilidade de acontecimentos desejados apenas para os tornar ainda mais especiais.
Um destes dias, Chiquita teve mais uma das suas ideias geniais. Surgiu-lhe enquanto navegava na net, uma actividade à qual dedicava uma ínfima parte do seu tempo. Daí que fosse uma coincidência mirabolante que a ideia lhe tivesse surgido precisamente nessa altura. Chiquita era uma crente acérrima no Princípio da Ordem Natural* e, devido a toda aquela improbabilidade, achou que aquela ideia devia ser muito especial. Ao navegar na internet, essa fonte fidedigna de informação, Chiquita viu uma estatística interessante: o número de ervilhas no mundo afectadas pelo vírus da Chupilose do Carnaval, apenas sexualmente transmissível, era 0,2% da população total de ervilhas no mundo. Essa informação crucial, por Chiquita desconhecida até então, fez-lhe surgir um sorriso de cova a cova. Tinha acabado de descobrir um método muito engenhoso de testar a doença.
Chiquita começou a preparar o primeiro kit de teste da doença. Comprou um tubo de ensaio baratucho e colocou lá um líquido verde com cheiro a refogado. Arranjou um autocolante tipo raspadinha e arranjou forma de colocar debaixo da superfície a riscar a seguinte mensagem: "Não tens chupilose, pá. Mas para a próxima, cuidadinho!". Chiquita sorriu por dentro quando percebeu que, de acordo com a estatística que tinha visto, tivesse ou não chupilose a ervilha, este kit acertaria em 99,8% dos casos. E 99,8% parecia-lhe um teste bastante fiável. Para tornar o teste mais profissional, Chiquita preparou um folheto informativo. As instruções eram as seguintes:
Para fazer o teste, (1) abre o tubo e (2) sopra lá para dentro. Se o líquido mudar de cor, não deves ter chupilose. Mas telefona-nos porque podes ter problemas crónicos de hálito. Se não mudar de cor, é um bom prenúncio. Em qualquer caso, risca o autocolante para saber o resultado. Podes usar uma moeda.
Quando havia instruções com muitos detalhes e a sugerir coisas ridículas e que as ervilhas não conseguiam entender, todos acreditavam mais na fiabilidade do teste. E era preciso dar segurança às ervilhas que faziam este tipo de teste.
Chiquita estava contente consigo mesma por ter feito tal descoberta tão fascinante e por ter conseguido usar as técnicas da Teoria do Casaco que levariam este teste ao número máximo de ervilhas. Fazia-o de forma altruísta, para ajudar todas as ervilhas em apuros. Sentiu-se útil à comunidade. Depois, apercebeu-se de que, dada a natureza do teste, nem chegava a ser preciso qualquer contacto directo com a ervilha que estava a ser testada. Podia, aliás, ser tudo feito na internet. Embalada de toda essa motivação, Chiquita criou um mega site na net onde as ervilhas podiam fazer o seu teste da chupilose a troco de 10 vagens. E podiam fazer dois testes pelo preço de um. Desde que fossem os dois na mesma ervilha. Algumas ervilhas queixaram-se dizendo que depois de fazerem o teste já não iam precisar do outro. Mas Chiquita explicou-lhes que ao fazerem dois, aumentavam a fiabilidade do teste.
Num processo de generalização abstracto digno das mentes mais brilhantes, Chiquita notou que este teste podia ser alargado a todas as doenças cuja expressão na população mundial de ervilhas fosse igual ou superior à taxa de fiabilidade que estivesse disposta a anunciar. Passado pouco tempo, tinha já montado um site onde testava todas as doenças presentes em menos de 1% da população. Eram praticamente todas as doenças relevantes para as ervilhas. Aos poucos a sua empresa cresceu e monopolizou o negócio de testes de doenças através de fusões e aquisições de outras empresas de testes mais pequenas. Eram empresas que não tinham conseguido crescer porque tinham ficado presas a burocracias legalistas que as obrigavam a seguir todo um conjunto de práticas deontológicas. Com as aquisições todas essas práticas puderam ser eliminadas e o mercado pôde funcionar livremente. Foi também uma lição de economia que Chiquita deu ao mundo.
Certo dia, houve uma ervilha muito esperta que provou por a+b que aquele teste não fazia sentido. Era uma ervilha que adorava provar coisas por a+b. Gostava da abstracção das variáveis e de como cada uma dessas letras podia representar tantos números diferentes. Já tinha aliás provado um monte de coisas por a+b. Fazia-a sentir-se bem. Chiquita foi processada e teve que retirar o seu teste do mercado. E teve que pagar uma indemnização. Não iria ficar ali a rir-se a fios de vagem despregados. Pagou um monte de dinheiro. Foi praticamente 17% daquilo que ganhou com a história do teste, o que era mesmo muito porque ela tinha ganho muito com o teste. Pagou pelo que fez. Por essa altura, porém, já Chiquita tinha outra ideia em marcha. Teve-a enquanto aparava a relva do jardim, coisa que só fazia uma vez por ano. Outra coincidência. Claramente, outra das suas ideias especiais.
* O Princípio da Ordem Natural (PON) é uma crença profunda de que acontecimentos muito improváveis que têm de facto lugar são especiais. Esses acontecimentos são designados por Coincidências Não Fortuitas. Algumas ervilhas levam este princípio mais longe e chegam mesmo a diminuir a probabilidade de acontecimentos desejados apenas para os tornar ainda mais especiais.
Os espasmos de Kolmicas
Conheço uma ervilha. Chama-se Ceroulas. Ceroulas começou a ter sonhos recorrentes com o Universo Azul Carmim. Na verdade, ela já costumava sonhar com ele todos os dias. Mas agora sonhava cada vez mais. E com mais força. Às vezes, mesmo acordada, chegava a ver grandes bandos de albatrozes a voar na sua direcção para a comer. Sentiu que devia fazer alguma coisa. Decidiu falar com Kolmicas. Apesar de estar farta das perguntas das ervilhas, Kolmicas tinha sempre tempo para questões profundas como esta. E Ceroulas sabia-o. Era daquelas poucas coisas que mantinha como certas na sua base de dados cerebral.
Ceroulas telefonou a Kolmicas. Ficou logo alegre quando percebeu que ao levantar o auscultador do telefone e ao chegá-lo até ao ouvido, o auscultador do telefone ia de facto parar ao seu ouvido. E precisamente ao ouvido esquerdo, tal como ela queria. Do outro lado atendeu Kolmicas. Ceroulas notou algum ruído na linha, mas lembrou-se que deveria ser o barulho de Kolmicas a recortar jornais, prosseguindo a sua classificação de notícias em caixinhas azuis e vermelhas.
Apesar de dedicar todo o seu tempo livre a manter um maravilhoso sistema organizacional baseado em caixinhas coloridas, Kolmicas tinha sempre tempo para conversar com Ceroulas. Eram muito amigas. Ambas sabiam das suas diferenças abissais e de como seriam sempre eternas, mas eram amigas. E as amigas gostam umas das outras apesar das suas diferenças.
Ceroulas falou-lhe do Universo Azul Carmim e de como tinha sonhos recorrentes com um espaço abstracto formado por todos os conceitos possíveis e imaginários. Falou também nos albatrozes maquiavélicos, mas Kolmicas não pareceu dar importância. Kolmicas não era muito de aves. Ceroulas prosseguiu dizendo que lhe parecia até razoável escrever um programa de computador que ficasse a enumerar todos os conceitos desse espaço. Um a um. Um a um. Para sempre. Na posse desse maravilhoso programa, não seria preciso descobrir mais nada no mundo. Poderia levar algum tempo mas, qualquer que fosse o conceito genial, nalguma altura o programa iria acabar por criá-lo. Ceroulas babou-se.
Kolmicas não lhe pareceu muito interessada. Mas como amiga, ouvia-a sempre com muita atenção. Ceroulas tentou então apelar directamente a Kolmicas, dizendo que todas as notícias de jornal, os pedaços de informação que alguma vez alguém podia escrever ou transmitir, viveriam nesse universo fascinante. Kolmicas ficou por minutos a contemplar um ponto do tecto enquanto imaginava um armazém de caixas vermelhas e azuis. Imaginou-o ultra organizado e isso acalmou-a. Depois, nessas suas visões, apercebeu-se de que esse armazém não tinha qualquer fim visível, de que as caixas vermelhas e azuis se estendiam por uma infinitude inimaginável e começou com suores frios. Sentiu que não iria ter tempo para organizar em caixas todo aquele Universo Azul Carmim. Sentiu uma falta de ar sôfrega. Os suores passaram a espasmos ritmados até que Kolmicas caíu redonda no chão. No momento do estrondo, Ceroulas viu o seu telefone transformar-se num albatroz gigante que ficou a olhá-la fixamente sem piscar os olhos. Ceroulas não ficou surpreendida. Era o que ela esperava da vida. Fez-lhe uma festa no pescoço. Era um animal doce. Tinha penas suaves.
Ceroulas telefonou a Kolmicas. Ficou logo alegre quando percebeu que ao levantar o auscultador do telefone e ao chegá-lo até ao ouvido, o auscultador do telefone ia de facto parar ao seu ouvido. E precisamente ao ouvido esquerdo, tal como ela queria. Do outro lado atendeu Kolmicas. Ceroulas notou algum ruído na linha, mas lembrou-se que deveria ser o barulho de Kolmicas a recortar jornais, prosseguindo a sua classificação de notícias em caixinhas azuis e vermelhas.
Apesar de dedicar todo o seu tempo livre a manter um maravilhoso sistema organizacional baseado em caixinhas coloridas, Kolmicas tinha sempre tempo para conversar com Ceroulas. Eram muito amigas. Ambas sabiam das suas diferenças abissais e de como seriam sempre eternas, mas eram amigas. E as amigas gostam umas das outras apesar das suas diferenças.
Ceroulas falou-lhe do Universo Azul Carmim e de como tinha sonhos recorrentes com um espaço abstracto formado por todos os conceitos possíveis e imaginários. Falou também nos albatrozes maquiavélicos, mas Kolmicas não pareceu dar importância. Kolmicas não era muito de aves. Ceroulas prosseguiu dizendo que lhe parecia até razoável escrever um programa de computador que ficasse a enumerar todos os conceitos desse espaço. Um a um. Um a um. Para sempre. Na posse desse maravilhoso programa, não seria preciso descobrir mais nada no mundo. Poderia levar algum tempo mas, qualquer que fosse o conceito genial, nalguma altura o programa iria acabar por criá-lo. Ceroulas babou-se.
Kolmicas não lhe pareceu muito interessada. Mas como amiga, ouvia-a sempre com muita atenção. Ceroulas tentou então apelar directamente a Kolmicas, dizendo que todas as notícias de jornal, os pedaços de informação que alguma vez alguém podia escrever ou transmitir, viveriam nesse universo fascinante. Kolmicas ficou por minutos a contemplar um ponto do tecto enquanto imaginava um armazém de caixas vermelhas e azuis. Imaginou-o ultra organizado e isso acalmou-a. Depois, nessas suas visões, apercebeu-se de que esse armazém não tinha qualquer fim visível, de que as caixas vermelhas e azuis se estendiam por uma infinitude inimaginável e começou com suores frios. Sentiu que não iria ter tempo para organizar em caixas todo aquele Universo Azul Carmim. Sentiu uma falta de ar sôfrega. Os suores passaram a espasmos ritmados até que Kolmicas caíu redonda no chão. No momento do estrondo, Ceroulas viu o seu telefone transformar-se num albatroz gigante que ficou a olhá-la fixamente sem piscar os olhos. Ceroulas não ficou surpreendida. Era o que ela esperava da vida. Fez-lhe uma festa no pescoço. Era um animal doce. Tinha penas suaves.
Ceroulas e o universo azul carmim
Conheço uma ervilha. Chama-se Ceroulas. Ceroulas detestava todas as linguagens usadas no dia-a-dia pelas ervilhas do mundo. Achava-as demasiado ambíguas e redundantes. Irritava-a também a sua natureza linear e unidimensional, o agrupar das palavras em frases, das frases em parágrafos. Não era dada liberdade a quem escrevia e a expressividade era sempre demasiado limitada.
Ceroulas acreditava que era possível definir de raíz uma linguagem perfeita que fosse suficientemente expressiva para permitir descrever todos os conceitos existentes e imaginários do mundo e ao mesmo tempo fosse cristalinamente objectiva. Ceroulas pouco se importava se essa linguagem poderia algum dia ser utilizada na realidade ou mesmo se alguém lhe pegaria. A mera idealização desta linguagem como conceito abstracto num universo de conceitos fora do universo físico material, fazia-lhe arrepios por toda a espinha. Ou pelo menos faria, se ela tivesse espinha.
Ceroulas tinha muita dificuldade em acreditar sem reservas na maior parte das coisas que as outras ervilhas tomavam como certo e garantido. Porém, ela não punha em questão a existência deste tipo de ideias e definições abstractas. Existisse ou não universo, fosse ela ou não um cérebro num boião controlado por um super computador, essas ideias abstractas existiriam sempre. Ceroulas imaginava-as a viver num universo à parte formado só por conceitos. Chegava a ter visões desse universo. Via-o azul carmim. Gostava muito de azul carmim. Fazia-lhe lembrar albatrozes.
Ceroulas acreditava que era possível definir de raíz uma linguagem perfeita que fosse suficientemente expressiva para permitir descrever todos os conceitos existentes e imaginários do mundo e ao mesmo tempo fosse cristalinamente objectiva. Ceroulas pouco se importava se essa linguagem poderia algum dia ser utilizada na realidade ou mesmo se alguém lhe pegaria. A mera idealização desta linguagem como conceito abstracto num universo de conceitos fora do universo físico material, fazia-lhe arrepios por toda a espinha. Ou pelo menos faria, se ela tivesse espinha.
Ceroulas tinha muita dificuldade em acreditar sem reservas na maior parte das coisas que as outras ervilhas tomavam como certo e garantido. Porém, ela não punha em questão a existência deste tipo de ideias e definições abstractas. Existisse ou não universo, fosse ela ou não um cérebro num boião controlado por um super computador, essas ideias abstractas existiriam sempre. Ceroulas imaginava-as a viver num universo à parte formado só por conceitos. Chegava a ter visões desse universo. Via-o azul carmim. Gostava muito de azul carmim. Fazia-lhe lembrar albatrozes.
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